Por Rildo Silva – presidente do SINAEES – AM e membro da Comissão CIEAM – Centro da Indústria do Estado do Amazonas de ESG.
“Não se trata apenas de manter incentivos. Trata-se de compreender que, na Amazônia, a indústria também é floresta”.
Durante muito tempo, o Polo Industrial de Manaus foi explicado como um mecanismo de compensação geográfica. Uma política pública para integrar a Amazônia ao projeto nacional. Uma resposta econômica ao isolamento logístico.
A indústria da floresta é mais que isso há muito tempo.
O Polo não é um favor federativo. É uma escolha civilizacional. Ele nasceu para oferecer à Amazônia uma alternativa ao desmatamento, para substituir a economia predatória por uma economia tecnológica, formal e auditável. E tem conquistado este desafio. Enquanto vastas regiões tropicais do planeta sucumbiram à conversão de florestas em pasto e mineração irregular, o Amazonas manteve mais de 97% de sua cobertura vegetal preservada.
Esse dado não é casual. É estrutural.
Agora, diante da consolidação progressiva da agenda ESG no mundo, abre-se uma nova etapa histórica. O que durante décadas foi uma política de equilíbrio regional pode tornar-se uma plataforma global de legitimidade climática.
A agenda ESG não deve ser vista pelo Polo como imposição externa, mas como linguagem internacional de reconhecimento. O mundo reorganiza suas cadeias produtivas a partir de critérios ambientais, sociais e de governança. Barreiras comerciais deixam de ser apenas tarifárias e passam a ser reputacionais e climáticas. Quem não mede, não reporta, não demonstra compromisso consistente, perde acesso a mercados e capital.
Para o setor eletroeletrônico — base do SINAEES e do PIM— isso é ainda mais evidente. Trata-se de uma indústria profundamente integrada às cadeias globais, dependente de credibilidade técnica, rastreabilidade e conformidade regulatória. Incorporar o ESG com seriedade não é aderir a um modismo. É garantir permanência e um diferencial competitivo.
Mas, no caso de Manaus, há algo além da competitividade.
Há uma vantagem comparativa que nenhuma outra região industrial do planeta possui. O Polo está inserido no coração da maior floresta tropical do mundo. E sua existência contribui diretamente para que ela permaneça em pé. Ao concentrar atividade econômica urbana e tecnológica, o modelo reduz pressões sobre o interior, gera emprego formal e cria estabilidade social.
Quando as empresas estruturam governança ambiental, aprimoram eficiência energética, investem em economia circular e consolidam práticas de transparência, não estão apenas cumprindo normas. Estão demonstrando que é possível produzir tecnologia avançada sem transformar floresta em passivo ambiental.
O impacto social reforça essa equação.
O Polo gera emprego formal, qualificação técnica, renda estável e presença institucional em uma região onde o vazio econômico costuma ser rapidamente ocupado por atividades ilegais. A indústria, nesse contexto, não é apenas agente econômico. É instrumento de coesão territorial.
É preciso dizer com clareza: desenvolvimento sustentável na Amazônia não se faz com romantismo improdutivo nem com exploração predatória. Faz-se com institucionalidade, inovação e compromisso de longo prazo.
Governança corporativa vira elemento de blindagem estratégica.
Durante décadas, a Zona Franca foi criticada sob a narrativa simplista da renúncia fiscal. A agenda ESG oferece a oportunidade de elevar o debate. Com métricas claras, auditoria robusta e transparência consistente, o Polo pode demonstrar sua contribuição real para o equilíbrio federativo, para a arrecadação indireta, para a pesquisa tecnológica e para a estabilidade ambiental.
O discurso deixa de ser defensivo. Passa a ser técnico e afirmativo.
Além disso, o ESG impulsiona inovação. A transição energética, a digitalização industrial, a rastreabilidade de cadeias produtivas, a gestão inteligente de resíduos e a integração com novas frentes de bioeconomia criam oportunidades de adensamento produtivo. O setor eletroeletrônico é protagonista natural dessa transformação. Não existe economia verde sem tecnologia. Não existe tecnologia sem indústria estruturada.
O momento histórico amplia essa responsabilidade. A Amazônia tornou-se epicentro do debate climático global. A realização da COP 30 em Belém é símbolo dessa mudança de eixo. O Brasil será observado não apenas por seu discurso ambiental, mas por sua capacidade de apresentar soluções concretas.
O Polo Industrial de Manaus quer ser uma dessas soluções.
Uma indústria de alta tecnologia operando na maior floresta tropical do planeta, preservando-a, gerando renda formal e cumprindo padrões internacionais de governança é mais do que um modelo regional. É um ativo geopolítico.
A agenda ESG, se assumida com profundidade estratégica e não como mera formalidade regulatória, transforma o Polo de objeto de contestação em referência internacional. Transforma a Zona Franca de mecanismo defensivo em plataforma propositiva.
A Amazônia não precisa escolher entre floresta e indústria.
Entre nós, essa é uma falsa dicotomia. O que está em jogo é o tipo de indústria que se instala na floresta e o tipo de governança que a sustenta. Se bem conduzida, a agenda ESG não enfraquece o Polo Industrial de Manaus. Ao contrário, consolida-o como uma das experiências mais sofisticadas de compatibilização entre produção, soberania e preservação ambiental no mundo contemporâneo.
E é nesse ponto que o Brasil precisa enxergar o que já construiu.
Não se trata apenas de manter incentivos.
Trata-se de compreender que, na Amazônia, a indústria também é floresta.
