(*) Por Rildo Silva – presidente do SINAEES-AM e membro da Comissão CIEAM – Centro da Indústria do Estado do Amazonas de ESG da indústria.

Há instituições que administram políticas públicas. E há instituições que moldam destinos, contribuindo para que as desigualdades regionais alcancem um patamar civilizacional.

A Superintendência da Zona Franca de Manaus – SUFRAMA – ao completar 59 anos, pertence à segunda categoria. Sua trajetória, além de admirável performance administrativa, é objetivamente civilizatória. Ou seja, atua desde sempre para redefinir o lugar da Amazônia no projeto nacional de desenvolvimento.

Se o Brasil industrializou suas metrópoles no século XX, foi na Amazônia que se testou, talvez pela primeira vez em larga escala, um modelo de industrialização associado à preservação ambiental. Hoje, quando o mundo discute ESG, descarbonização e cadeias sustentáveis, a Zona Franca de Manaus já carrega quase seis décadas de prática concreta na conciliação entre produção industrial e floresta em pé.

O paradoxo que se tornou virtude

Durante décadas, críticos externos trataram o modelo como um enclave artificial. Ignoraram o dado essencial: enquanto outras regiões brasileiras expandiam fronteiras agropecuárias sobre biomas frágeis, o Amazonas manteve mais de 97% de sua cobertura florestal preservada.

Não se trata de coincidência.

A industrialização concentrada em Manaus reduziu pressões sobre a ocupação predatória do território. O Polo Industrial de Manaus (PIM) tornou-se uma âncora econômica urbana que substituiu vetores de desmatamento por emprego formal, tecnologia e arrecadação tributária.

Hoje, o PIM reúne centenas de indústrias, responde por parcela expressiva do PIB regional e gera dezenas de milhares de empregos diretos, com forte impacto em renda, inclusão social e arrecadação federal. Mas há um dado menos visível e mais estratégico: trata-se de uma das matrizes industriais com menor impacto territorial do país.

Isso é ESG antes da sigla existir.

SUFRAMA e a governança do desenvolvimento

Ao longo desses 59 anos, a SUFRAMA foi além da concessão de incentivos fiscais. Tornou-se indutora de política industrial regional, gestora de investimentos em P&D, articuladora de cadeias produtivas e financiadora indireta da ciência amazônica por meio dos mecanismos vinculados à Lei de Informática.

A universidade pública multicampi do Amazonas, centros de pesquisa, institutos tecnológicos e projetos de bioeconomia dialogam, direta ou indiretamente, com o ambiente regulatório e econômico estruturado pela autarquia.

Mais recentemente, a agenda ZFM + ESG consolidou uma inflexão estratégica: não basta produzir; é preciso produzir com rastreabilidade, transparência, responsabilidade socioambiental e compromisso climático.

O que antes era diferencial passou a ser exigência global.

A Indústria da Floresta: nova etapa de maturidade

O conceito de Indústria da Floresta não é retórico. Ele representa a maturidade de um modelo que compreende que competitividade amazônica não se constrói contra a floresta, mas a partir dela.

Estamos falando de cadeias produtivas com menor intensidade de carbono; integração entre eletroeletrônicos, tecnologia da informação e bioeconomia; inovação aplicada à economia circular; transição energética nos processos industriais; fortalecimento de cadeias regionais sustentáveis e inserção do Polo Industrial nas agendas globais de descarbonização.

A indústria instalada em Manaus, especialmente o setor eletroeletrônico representado pelo SINAEES-AM, já opera sob padrões ambientais rigorosos, com sistemas de logística reversa, controle de resíduos perigosos, certificações internacionais e investimentos contínuos em eficiência energética.

Essa é a face contemporânea da Zona Franca.

ESG como compromisso, não como marketing

A agenda ESG, quando levada a sério, exige governança, métricas, transparência e compromisso de longo prazo.

No contexto amazônico, ela assume dimensão adicional: soberania territorial e justiça social.

O modelo da Zona Franca demonstra que é possível combinar geração de riqueza com preservação ambiental; arrecadação federal com desenvolvimento regional além de tecnologia de ponta com floresta conservada.

Isso não significa ausência de desafios. Significa, sim, que há base institucional sólida para enfrentá-los.

A digitalização industrial, a incorporação da inteligência artificial, a adaptação às novas cadeias globais de valor e a diversificação produtiva são tarefas em curso. E a SUFRAMA, ao completar 59 anos, precisa ser fortalecida institucionalmente para cumprir a próxima etapa dessa missão.

A próxima fronteira

O debate internacional sobre clima e biodiversidade coloca a Amazônia no centro da agenda global. O Brasil será cada vez mais cobrado por resultados ambientais. E a resposta não virá apenas de discursos diplomáticos, mas de modelos econômicos comprovadamente sustentáveis.

A Zona Franca de Manaus é um desses modelos.

A Indústria da Floresta não é utopia. Ela é a evolução natural de um arranjo produtivo que já demonstrou que desenvolvimento pode ser instrumento de proteção ambiental.

Celebrar os 59 anos da SUFRAMA não é olhar para o passado com nostalgia. É reconhecer que a Amazônia dispõe de uma infraestrutura industrial, tecnológica e institucional capaz de liderar a transição para uma economia de baixo carbono no hemisfério sul.

Se o século XXI exige coerência entre produção e preservação, a Zona Franca já provou que esse equilíbrio é possível.

E é exatamente essa coerência que continuará orientando nossa atuação.

A floresta em pé não é obstáculo ao desenvolvimento.

Ela é sua maior vantagem competitiva.

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